Tenho mais-ou-menos a mania de guardar em cadernos fragmentos de textos que me tocaram ou que de algum modo quis que permanecessem comigo...
E de vez em quando, ao relê-los... são de uma claridade absoluta :)
Como aconteceu hoje, com este pedaço de luz:
"Quando, bastante imprudentemente, falo de Deus, falo apenas deste lado da vida em que estou, e mais precisamente de uma parte desta vida, que está abandonada e se assemelha a uma arrecadação de ferramentas ao fundo de um jardim. Deus não se deixa ficar na casa do senhor. Abriga-se nessa cabana feita de tábuas suficientemente mal ajustadas para que uma réstia de luz aí se possa infiltrar. Embora não saiba nada dele, é-me impossível fazer como se não tivesse nada a ver com os nossos dias mais banais. Esses dias são como livros e esses livros são escritos por ele: rosto, dor e bondade são as páginas mais ricamente iluminadas, tal como roseira, pardal e primavera. Não sei o que mais impede os homens de ler: se a avidez, se a falta de atenção. A avidez nasce da sua falta de atenção. Quando olhamos apressadamente para uma coisa bela - e todas as coisas vivas são belas porque trazem em si o segredo do seu próximo desaparecimento - apetece-nos guardá-la para nós. Quando a contemplamos com o vagar que merece, que requer e que, por um instante, a protege do seu fim, então ilumina-se e já não temos vontade de a possuir: a gratidão é o único sentimento que responde a essa luz que entra em nós..." (Christian Bobin in Ressuscitar)
É bem verdade que a nossa vida fala continuamente e imperfeitamente de Deus...
e que a avidez e a falta de atenção nos impedem tantas vezes de O lermos em tudo o que vive...
e que é o sermos genuinamente gratos que nos torna transparentes - à luz que entra...mas não fica guardada em nós :)
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1 comentário:
Bem, eu leio pouco, e sempre tive pena disso. Tou a gostar desta solução, ler as tuas selecções :) esta tambem adorei! bjs
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